Ruelas

Sempre fui um cara fascinado por ruelas - trechinhos misteriosos que guardam em cada sinuosidade segredos que o tempo amou e fez questão de eternizar. Aos meus olhos sempre curiosos, essas linhas disformes carregam um charme discreto, convidativo, sedutor. Nunca se sabe o que esperar quando se adentra em uma dessas ruelinhas, que num apertinho aconchegante, nos regala o melhor dos brilhos, atenuados pela opacidade de um filetinho longínquo de luz e o frescor envolvente de uma cálida lufada de vento. É espremido entre esses 2 muros que resgatamos a sensação deliciosa da palpitação de um coração descompassado.
É na calada da noite, aonde os coadjuvantes se resguardam em seus leitos, que os andarilhos com destino incerto vagueiam a desbravar saborosamente esses contornos nada retilíneos. Mundo afora, milhões de ruelas oferecem o melhor dos palcos para o tilintar solitário dos pedais de uma bicicleta qualquer, o fasfalhar de um vaga-lume errante, o gostoso riso de duas crianças distantes. É neste vazio silencioso que o abraço comove, o sorriso ilumina, os olhares se encontram. E é só nele, neste momento maravilhoso, aonde 2 almas esquecidas compreendem e dançam a melodia única orquestrada magistralmente pelo silêncio.
É mais ou menos como Drummond filosofava sobre as flores: as ruelas não tem porquês - são porque são. São sombrias, misteriosas, curvilíneas, arejadas, silenciosas. Simples assim. Entrecaminhos que brindam às cidades com um ar mais poético e lírico e que pontuam e dão pausa às eloqüentes avenidas e ruas. Cicatrizes mais que vivas de um passado recheado de história e glória. Pedacinhos retangulares que respiram com romantismo e acolhem com primor. As ruelas são o que são. As ruelas são porque são.
Dia desses, em uma de minhas repentinas perambulações, fui acometido por uma cruel indecisão. Roberto Nixon, um americano qualquer, anos muito antes também foi vítima da mesma dúvida, da qual pego emprestada e cito através de 4 aspas certeiras: "duas ruelas bifurcavam num bosque de outono, e eu, viajante solitário, triste por não poder andar por ambas, por longo tempo lá fiquei olhando até onde desapareciam na folhagem. Duas ruelas num bosque bifurcavam e eu - eu fui pela menos pisada, e isso fez toda a diferença".



















