Ruelas

Sempre fui um cara fascinado por ruelas - trechinhos misteriosos que guardam em cada sinuosidade segredos que o tempo amou e fez questão de eternizar. Aos meus olhos sempre curiosos, essas linhas disformes carregam um charme discreto, convidativo, sedutor. Nunca se sabe o que esperar quando se adentra em uma dessas ruelinhas, que num apertinho aconchegante, nos regala o melhor dos brilhos, atenuados pela opacidade de um filetinho longínquo de luz e o frescor envolvente de uma cálida lufada de vento. É espremido entre esses 2 muros que resgatamos a sensação deliciosa da palpitação de um coração descompassado. 

É na calada da noite, aonde os coadjuvantes se resguardam em seus leitos, que os andarilhos com destino incerto vagueiam a desbravar saborosamente esses contornos nada retilíneos. Mundo afora, milhões de ruelas oferecem o melhor dos palcos para o tilintar solitário dos pedais de uma bicicleta qualquer, o fasfalhar de um vaga-lume errante, o gostoso riso de duas crianças distantes. É neste vazio silencioso que o abraço comove, o sorriso ilumina, os olhares se encontram. E é só nele, neste momento maravilhoso, aonde 2 almas esquecidas compreendem e dançam a melodia única orquestrada magistralmente pelo silêncio.  

É mais ou menos como Drummond filosofava sobre as flores: as ruelas não tem porquês - são porque são. São sombrias, misteriosas, curvilíneas, arejadas, silenciosas. Simples assim. Entrecaminhos que brindam às cidades com um ar mais poético e lírico e que pontuam e dão pausa às eloqüentes avenidas e ruas. Cicatrizes mais que vivas de um passado recheado de história e glória. Pedacinhos retangulares que respiram com romantismo e acolhem com primor. As ruelas são o que são. As ruelas são porque são.

Dia desses, em uma de minhas repentinas perambulações, fui acometido por uma cruel indecisão. Roberto Nixon, um americano qualquer, anos muito antes também foi vítima da mesma dúvida, da qual pego emprestada e cito através de 4 aspas certeiras: "duas ruelas bifurcavam num bosque de outono, e eu, viajante solitário, triste por não poder andar por ambas, por longo tempo lá fiquei olhando até onde desapareciam na folhagem. Duas ruelas num bosque bifurcavam e eu - eu fui pela menos pisada, e isso fez toda a diferença".

Plim

 

Ia ela de metrô e ia eu na onda dela. Na onda gostosa e envolvente que aqueles dois olhinhos formavam ao abrirem e fecharem e voltarem a abrir e a encenar aquele descompasso gostoso, aquela velocidade estudada, aquele jeitinho moleque e aquela felicidade ingênua de quem ao mundo pertence e no futuro confia o destino incerto recheado de sonhos e cores.

E assim ia ela, entretida em alguma conversa qualquer, com aquele sorrisinho nos olhos que ia e vinha, com aquele desenlace natural e aquele charminho único de se arremessar aqueles cabelos negros para um lado e para o outro. E assim ia eu, feliz, embarcado e seduzido por aquelas intrigantes pálpebras que bailavam sem parar, num movimento cíclico, vital, gracioso, eterno.

E então ela, em meio à toda essa simplicidade, em meio à toda sua juvenil beleza, não tinha nada demais. A não ser por este parzinho delicioso de pequenas e simpáticas jabuticabas que não paravam de dançar, ouvir, concordar e docemente fazer plim, plim-plim, plim, plim-plim-plim, plim-plim…

Bêbado no samba

 

Bêbado é uma merda, distorce tudo. Prova disso são as minhas recém-descobertas e os mitos desvendados em uma velha e estimada música. O belo samba em questão, de autoria do mestre Paulinho da Viola, intitula-se Bebadosamba. Primeiro equívoco: jurava pela comunidade inteira das Carmelitas que essa mesma música se chamava Bêbado no Samba - coisa de bêbado. Segundo: achava, como todo bom e repetitivo bêbado e pelas minhas parcas lembranças auditivas naquela altura do camp, que ela era composta de apenas um refrão entoado infinita e pertubadoramente em destoantes tons no melhor estilo: bê-ba-do no samba, bêbadonosamba, bê-badonosamba, bêbado no sambèèèbá. Na verdade, a música nada mais nos oferece de bandeja um gole dos bons - beba o samba. Acabei bebendo todas, inclusive a letra da canção. Bêbado é, fatalmente, uma desgraça.

Bêbado é covarde. Bebe todas, dá vexame, vê o tubarão comendo a lua e, como justificativa, diz que comeu pouco, que o whisky era falsificado, que a cerveja tava quente, que o vinho era barato demais. Foi por isso então. Aviso: comer pouca embebeda. Ou então fala que não paravam de serví-lo, ou, pior ainda, que seria uma tremenda indiscrição recusar um gole do garçom camarada e solícito.

Bêbado vive querendo dar desculpas esfarrapadas. Bêbado, em geral, vive 3 dias em 2: a tremenda ansiedade da bebedeira por vir, um dia antes, e a ressaca mortal do dia após. Bebe tanto que, no ápice da emoção, por total inconsciência ou inseparável razão, esquece tudo. Por vezes camufla, esconde, maquia. Quiçá para deixar o fardo um pouco mais leve no post-mortem ou para simplesmente não carregar cruz alguma. Com base nisso, pode-se afirmar que a memória é o grande algoz do bêbado. É ela quem persegue, assombra, intimida. Mas o bêbado, invencível, vingativo e orgulhoso, trava um duelo diário com a memória, afogando-a, gole trás gole, até um desmaio profundo e momentâneo que o inunda de uma falsa, efêmera e findável euforia e sentimento de vitória.

Outra coisa comum nos bêbados é a razão. Bêbado é o melhor juiz de si mesmo. Sempre tá certo - bêbado jamais. Pode constatar: um bêbado NUNCA tá bêbado. Ele tá, no máximo, alegrinho, falante, serelepe. Agora, bêbado? Isso nunca. Bêbado é corajoso, poeta, engraçado, inteligente, piloto, sentimental, flexível, compreensivo, simpático, decidido, ousado, generoso, dançarino. Bêbado é tudo. Menos, nem no mais crítico dos panoramas nem no pior dos quadros, propriamente, um bêbado.  

Agora, após juntar as cinzas e retornar de mais um (in)esquecível carnaval na cidade mais maravilhosa de todas e de me portar como um legítimo bêbado no samba durante 96 horas, eu posso afirmar, com ciência, pelo menos uma coisa: bêbado bom é o que não bebe. E como consolo para todos os outros que carregam todo o remorso do mundo no dia seguinte e a incabível emoção na véspera, lhes deixo um sábio refrão apenas descoberto dessa obra mal explorada, aonde "o mestre do verso, de olhar destemido, disse uma vez, com certa ironia: se lágrima fosse de pedra, eu choraria."

Suco

  

Tá. A verdade é que Deus, como um assaz cozinheiro do universo, acertou a mão quando teve a brilhante idéia de pendurar algumas bolinhas naquela sua magnífica invenção de nome árvore. Bom-gosto puro. Quem mandou mal depois disso fomos nós, ao desafiarmos todas as leis básicas de respeito ao criador e querer dar nome às frutas, que naturalmente transcendem de qualquer tentativa ousada e infame de classificação. Virando a página e tempos depois, após já nos termos acostumados com abomináveis denominações como pêra, uva, maçã e limão, nos surge um ser muito insosso que, pasqualices à parte, nos traz à mesa a indigestão em palavra chamada suco.

Suco é a típica palavra que carece de todas as vitaminas. Não carrega consigo a delícia do sentimento, da magia, do conteúdo(neto?). É órfã daquela cremosa pronúncia que repousa saborosamente nas papilas gustativas. Suco é seco. Suco é oco. É uma parede de concreto, um xuxu do vernáculo. Não diz nada, apenas significa (outra palavra horrenda). Só a título de exemplo, repita comigo: lasagna. Outra história, né? Desmancha na boca, pode falar. E croissant? Petit gateuau? Creamcheese? Muzzarela? Catchup? Maravilhas da culinária, maravilhas do vocábulo.

É essa a quintaessência gramatical que falta pra cozinha brasileira decolar. Mas fique tranqüilo você, que é também um embaixador desses regalos de nossa inestimável selva. Nem tudo está perdido. Temos lá nossos acertos, afinal, somos ou não somos brazucas? Caso desses, podemos dizer, é o da melância, da jabuticaba, do pêssego, da amora, do guaraná, da ameixa. Gostosos na polpa e gostosos na pena. Também temos a mexerica - olha que maravilha? E a lichia então? Degustação pura!

Do outro lado do tabuleiro, o tomate, exceção das excessões, por ter uma construção demasiadamente pobre e previsível, foi expulso das famílias das frutas já há muito. E daí então, vive por outras bandas. Caso das maçãs também, que se encontram nos salpicões e também das mangas, que fogem  pras saladas. Este sim é um fenômeno em forma de êxodo muito recente e que deve ser encarado como um alerta real que denota a represália que essas frutas vêm sofrendo das mais requintadas. O côco então, nem se fala. Teve que mudar pro terraço do seu berço pra se proteger dos ataques baratos que sofria. Mas ele é a única fruta que pode se gabar de nunca virar suco: será eternamente a glamourizada água de côco. Ainda bem, né, porque suco de côco seria pra entalar na garganta.

O problema da palavra suco é que ela não desperta uma vontade alucinante, não dá, por assim dizer, água na boca. Ela não condiz com tudo que ela representa. Pô, tem coisa melhor que aquele suco gelado, refrescante, no point? Mas ele é bom na prática. Ele é lindo na prática. Na teoria, ele fica nessa inércia, boiando na solidez de duas vogais e duas consoantes. Os cariocas, carregando o incômodo de se deparar com esta inflexível referência e carregando também o malabarismo malandro da recaracterização, adaptaram o suco para o sacolé: mistura extremamente riquíssima de suco com geladinho e picolé. Olé! Quase uma grife, right?  Ou vai dizer que champagne é a mesma coisa que suco? Até catuaba tem um gingado muito mais interessante. E, por certo, uma ressaca muito mais mortal.

Se eu pudesse, eu juro, juro mesmo, que eu tomaria essa palavra suco do dicionário. Tomaria com gosto, sem açúcar, sem gelo, sem canudo. Mesmo sabendo dos sérios riscos que eu correria de má digestão, bulimia, dor de barriga, azia e refluxo. Na verdade das verdades, eu tomaria essa palavra emprestada pra sempre. Pra nunca mais devolver. Nem mesmo na forma mais asquerosa de um, mais que merecido, arroto.

Conversa fiada

  

- Trim, trim, soa, irritantemente, o telefone fixo.

O começo e o final, todo mundo já sabe. Alou, tudo bem, como vai, bem e você, então tá bom, etc e tal. Dái vêm os abraços, beijos, tchau tchau’s..é aquela história - num muda nada. Vai mudar só o enredo, as falas, o recheio e o assunto do momento.Mas uma coisa é certa: o telefone distorce as coisas.Num é a toa que existe, se faz alusão e até hoje se brinca do tal do telefone sem fio.

No telefone, a intimidade se multiplica, as distâncias diminuem, o calor humano aumenta, as barreiras são quebradas e o inimaginável é posto a prova.Estagiário manda abraço pra chefe, todo mundo diz que ama todo mundo, tímidos mandam beijos pra deus e mundo e por aí vai, sem parar. Eu, sinceramente, não consigo compreender muito a natureza dessas saudações, do tipo, ˜manda um beijão pra ela˜. Tá, que que é um beijão? Como que manda? Ou é só falar? Mas só falando, cade a graça? ˜Ester mandou um beijão pra você˜. ˜Tá, obrigado˜. Obrigado é a única coisa que cabe nessa, porque retribuir não vai ter como, afinal, Ester já largou o gancho faz horas. E o beijo fica. Ou não? E se ficasse, seria do tipo, aquele que estrala demais? Ou do que deixa uma babinha? Fica difícil transmitir a mensagem à risca. Nem o lado da bochecha foi especificado! O encarregado de mandar as saudações fica numa posição difícil quando ele tem que retribuir os carinhos demandados. Peso grande. Deve ser por isso que ele retransmite verbalmente. Imagina só ele ter que cumprir a risca? Almoço de domingo, família reunida e a missão enviada: "Oh, manda um beijão pra todo mundo˜. ˜Pra todo mundo?" deveria ele esquivar. Mas ele acata - ou diz acatar. E cumpre, pela metade, a ordem. Manda beijos, abraços e confetes.

Tem muita coisa errada nesse negócio. Beijos e abraços. Quantos? Beijos até vai, 2 na bochecha, aquela coisa carioca..agora três, no Brasil? E abraços então…só se dá um com aquela intimidade, naquele jeito maroto, com 3 palmadinhas no ato. Imagina vários, pra mesma pessoa. Abraça, afasta, vai denovo, abraça..ô beleza.Vai virar coreografia. Talvez o erro da execução esteja mais na falta detalhada de informação do que na improvisação do personagem escolhido. 

No meio disso tudo, há uma coisa muito curiosa: no telefone, não existe aperto de mão. Se supõe que todo mundo que é agraciado com um afago é íntimo ou, pelo menos, deveria ser. ˜Manda um aperto de mão pro Julinho˜ - nunca ouvi. Ou é beijo ou abraço. Num tem erro! Mais curioso ainda é quando nós, escutando de butuca e sem conhecimento nenhum de causa do assunto, somos introduzidos no assunto e citados: ˜Ele tá mandando outro também˜. Agente já sabe, já imagina e, o melhor de tudo, sem precisar mandar, manda. Sem mandar, já mandaram! Agora já era. E muda alguma coisa? Será que um abraço, à 840 km de distância, conforta? Ou um beijo excita? Bom, pra não deixar dúvida e já que é de grapa, que mau tem? Manda vai. Manda sem mandar.

E a hora da despedida? Sempre um desconforto. Quem desliga primeiro? Nunca se sabe. Mas, o que se sabe é quando essa hora está se aproximando. Daí chove indireta. ˜Então tá bom" é a melhor, ganha de todas, num tem boca. ˜Piriri, parara, papa.." e você vem, como uma lâmina cortante, interrompendo o assunto enfadonho e mandando: ˜Tão tá". É só falar que o lado B, falastrão e tagarela, por vezes, capta. E quando não capta? Aí é fogo. Se tenta de tudo. Fica-se mudo, começa-se a murmurar "ahã" repetida e incansavelmente, deixa-se o assunto morrer, o silêncio pairar, a respiração ressoar. E daí então, em última e gloriosa estância, trocam-se os cumprimentos finais. A dúvida que fica é, em alguns casos, e até no meu, a seguinte: por que "tchau, tchau"? Por acaso você tava falando com alguma espécie rara de gêmeas siameses? Ou você é gago? Na pior das hipóteses, você é mais um. Mais um que, sem saber e sem consciência nenhuma, fala, comunica-se e tenta se expressar, sem ao menos, sentir, o peso milagroso das palavras.

O dia em que a Lua parou

Até ela parou. Em um de seus rotineiros passeios pelo despejado e incrivelmente negro céu paulistano, ela simplesmente estancou. Era um convite irresistível. De uma posição privilegiada, ela pode acompanhar, sem se mover, o encontro épico de uma legião delirante de terráqueos com um deus. Um Sir! Até o céu, emocionado, se conteve e segurou as suas lágrimas para não borrar essa paisagem que se eternizou na memória de todos que fizeram de um estádio de futebol o antro mais feliz, histórico e inesquecível de um domingo nada qualquer.

Em um momento raro aonde a natureza se confunde, a Lua teve furtivamente o seu brilho ofuscado por uma estrela. Uma das últimas estrelas integrantes da mais fantástica constelação do planeta. Uma estrela que carrega no seu DNA a alcunha de McCartney. Uma estrela cadente. Que chispas trás chispas, por cerca de 3 horas, abrilhantou a vida, a alma e o coração de milhares de fanáticos. O calor humanamente brasileiro obrigou sir Paul, logo na quarta música, a retirar de uma forma daystripper o seu jaleco azul.Já mais a vontade e esbanjando muito mais bom-gosto e charme, o maior astro daquele coliseu musical era suspenso por apenas 2 alças de seu inconfundível macacão.

E de aí em diante, foi uma sucessão de emoções em forma de acordes, reboladas, baladas, encenadas e muito romantismo. Baterista, baixista e guitarrista, coadjuvantes de um protaganista sem comparações, roubavam com naturalidade e improviso cenas de um filme de época. Uma época que não se torna obsoleta jamais. Uma época em que o tempo é desmedido e se esvai na contemporaneidade das coisas. Talvez, o maior feito desses insetos da música tenha sido justamente esse: o de ter rompido com os estigmas dos ponteiros. Façanhas de jovens deuses disfarçados na carcaça de humanos.

Durante todo este tempo aonde Deus, por alguns instantes, se equiparou com humanos, houve uma roleta russa de emoções. Lágrimas rolavam face abaixo para logo depois redesenharem as bochechas com sorrisos deliciosos. Abraços espremiam, exprimiam. O corpo bailava. Os ouvidos se regozijavam. Os olhos, azuis, verdes, castanhos, diversos, aos pares, se lisonjeavam desmedidamente. Os binóculos faziam o favor de deixar ainda mais próximo esta figura sobrenatural. E o estádio vinha abaixo, batendo palmas, em coro e fazendo a clássica adoração aos berros: “Paul, Paul, Paul, Paul”.

Com o apito final e o último acorde de The End, a lua preparava a sua retirada, mais brilhante e revigorada do que nunca. Juntamente com ela, os 64 mil corações voltavam, paulatinamente, a bater. Mais felizes, mais realizados e mais apaixonados pelo mais nobre dos ingleses. Thank you very much, sir Paul.

Gulocentrismo

O brasileiro é uma peça. Peça rara. Virtudes que comprovam isso não faltam. Vejamos uma delas: a oferenda. Você já reparou, que gozado, é o oferecimento de qualquer coisa? É hilário. Pra exemplificar, recorrerei às clássicas batatinhas fritas. Visualize você a corriqueira cena: esta lá, fulano de tal, beliscando aquele delicioso mundarel de batatinhas até que, lá pelas tantas, quando a pressão cai e a barriga estufa, ele gentilmente oferece:

- Aceita uma batatinha?

Uma batatinha? Uminha só? É brincadeira. O cara te deve dinheiro, almoça todo domingo na sua casa, namora a sua irmã mais nova e tem a audácia de te oferecer, entre os mais de 41,5 mini-tubérculos, apenas unzinho. Y no más! Fim da picada, começo da gastrite. Egoísmo da gastrite, ami.

Tem alguns casos em que o descarado egoísta joga limpo, veste a carapuça, apanha o garfo e manda:

- Pegaí..tem bastante.

Essa é fuego de engolir. Tá. Por quê? Se não tivesse, você não ofereceria? Assassinaria por omissão o esfomeado? Dividir, meu pai, virou, mesmo, uma operação matemática.

No campo dos líquidos, além dessas outras mais – tem tantas - tem aquela aonde o protagonista abre aquela coca jumbo de 3,5 l, tamanho família real, mata a sede, arrota a alma e, já quase sem gás, convida:

- Qué um golinho?

Amigo..essa não dá! Um golinho quanto? Uma colher de sopa? De chá? Xarope por xarope, né? E ele ainda nos seca para ver em que borda do copo largaremos aquele teimoso resquício do nosso almoço. Marquinha registrada. Desconfortante…

Chega a ser curioso, na verdade. Agente sempre acha que mereceria e desfrutaria muito mais do que o bendito agraciado. Aquela velha história: “amamos mais o desejo do que o desejado”. E nos castigamos arduamente a cada mordida sonora, a cada sedento gole, a cada apetitosa lambiscada, que não é, no final das contas, propriamente a nossa. Voyeurismo gastronômico. Invejinha do bem.

De qualquer forma, nós encaramos bem essas situações. Nós, ladrões aos pedaços, no fundo, no fundo, nos beneficiamos, mesmo que nossos eternos inimigos continuem oferecendo apenas um mordidinha do Big Mac, uma colherzinha da feijoada e uma pipoquinha do balde. E sabe por quê? Porque tudo que nos é inicialmente negado, vem dos outros e no fim é roubado, é, infinitamente, mais saboroso.

Powerpoint

Nunca foi tão fácil ser professor. Uma boa oratória, um terno limpo, uns sapatos não muito reluzentes, uma gravata tímida, uma lapiseira de bolso, um bom timbre de voz e o mais importante: um par de olhos decentes. Decentes e funcionais. Eis aí acima a grande fórmula do novo maestro. Uma boa aparência e a complexa habilidade de ler slides.

Olha só aonde fomos parar..aonde foi que se perdeu a surpresa da espontaneidade e a instigante improvisação do conhecimento compartilhado? Em que beco, em que esquina? Ou melhor, em que diretório, em que disquete, em que pendrive? Fomos, realmente, pervertidos pelo conforto. Pelo conforto de saber mesmo não sabendo. De ostentar mesmo não tendo. De ser, mesmo não sendo. Ah, que vil e abominável golpe é esse o do engano. Do ledo engano. Do auto-engano. Que engana e arrebanha outros e mais outros. E dizima intelectualmente multidões indefesas e vulneráveis ao fantasiado desconhecimento alheio.

São os cliques que não cessam jamais. Que vão e vêm num oceano de parca sabedoria. O grande ofício dos mestres contemporâneos na ponta de um dedo. De um dedo que não indica mais nada. Que não indica nem a dor nem o prazer. Mas que aponta para o que já estava escrito. Maktub arcaico, ultrapassado. Quem diria que até os patriarcas da educação, outrora tido como deuses, seriam os primeiros a se apoiarem nas muletas do aconchego. A se entregarem às rédeas do comodismo..

Que saudades eu tenho de quando mouse era apenas uma simpática forma de se chamar os ratos. De quando MBA era uma respeitada liga de basquete norte-americana. E de quando slide era uma aclamada e invejável manobra de skate. Saudade essa que, ao contrário do falso conhecimento acumulado, não tem idade. E que repousa, sem dúvida, na eternidade das boas lembranças que não retornam jamais.

Direitos Autorais

Eu poderia viver tranquilamente de Direitos Autorais. Sério. Aliás, tranquilamente não. Pra ser sincero, eu ganharia rios de dinheiro. Sabe por quê? Porque eu sou o rei das fotos alheias. Já saí em tantas…De tudo quanto é tipo de pose que você pode imaginar. De perfil, agachado, de frente, de cócoras, de ombros, 45º pra esquerda, de costas, pela metade, lá no fundo, bem no primeiro plano, na multidão, sozinho, com o ator principal, sorrindo, piscando, falando, bocejando, gesticulando. As poses são infinitas. Devem existir até umas mais inusitadas que nem classificação tem. Acrobacias mesmo. E que devem estar enfeitando um belo porta-retrato nas margens do Nilo ou em uma pequena aldeia do Zimbábue. Nunca saberei, apesar do vento e do tempo se encarregarem de perpetuar essa fama anônima internacional.

Mas o que basta mesmo é apenas um click para se gravar uma figura pra posterioridade. As vezes um click luminoso, outrora um click discreto. Mas é num piscar de olhos que tudo é guardado para a eternidade. Uma cena que talvez você jamais se recorde e jamais visualize. Mas que você presenciou, de coadjuvante, de cobaia, de bicão. Intencionalmente.

Pensando bem e por esse ângulo, falta reconhecimento neste ofício. Que maneiro seria um casting para foto! Bem no verso mesmo, do tipo, figurante 1: ancião de xadrez jogando dama no fundo esquerdo – Trajano Ropa. Pronto. Nós não proclamamos muito. Apenas uma breve lembrança. Afinal, somos espontâneos. Estamos ali, na hora, no dia e no lugar certo. Seres iluminados – luz natural, flash.. Além disso tudo, raramente fazemos caretas, nunca roubamos a cena e sempre damos um ar de vivavidade para o momento congelado. Arte pura. Por nada.

Eu, sinceramente, nem imagino por onde eu deva estar. Nem em que proporção. E muito menos em que posição. Na vertical, pendurado na parede, dentro de uma gaveta. Quem sabe até essa minha faceta já tenha sido morta de várias e cruéis maneiras, como com uma tarraxa no crânio ou várias no coração. O que eu sei é que urge uma regulamentação para esta nova profissão não reconhecida. Porque se cada sorriso é um flash, cada flash, amigo, é mais uma nova oportunidade perdida de se enriquecer.

Curriculum vitae

Curriculum. Taí uma palavra que eu não vou com a cara. Nem com o ouvido. Olha só como soa..cu…rico..nananão, pó para! Tem coisa errada aí. Que que é isso? Vitae ainda por cima. Esses latinos têm cada uma..o que será que eles queriam dizer com isso? Eu hein..tô fora. Prefiro ser uma folha em branco mesmo, limpinho, tranqüilo, saudável. Mas o pior é que estando por fora, acabamos excluídos do mercado e daí então já viu - tchauzinho pros pastéis, pras garapas, pros sandubas com mortadelas. Dureza!

Mas olha, até que vale a pena, pelo menos no meu caso. Primeiro porque veja bem, eu não sou nada flexível. Eu já fui, é verdade. Mas hoje, nem encostar a ponta dos dedos das mãos nos dos pés eu consigo. Depois tem aquela coisa de pró-ativo. Tampouco. Nem hiperativo. Sou da paz, pacífico, passivo.

Bom, aí vem aquela história de comprometimento. Palavra grande, poderosa, de efeito. Mas também não, valeu. Tô solteiro. Ou melhor, como já diria um grande amigo - Tô pras cabeça. Daí então que surge o quesito organização. Passo longe também. Faço da xícara de café meu porta-lápis, do tapete meu jogo americano, da toalha meu cobertor e por aí vai, só no improvisation. Tem coisa melhor? Caço com gato, com rato, com pato. Com o que tiver.

Até que me deparo com a tal da adaptação! Essa sim eu tenho que confessar que eu me submeto. Tem jeito? Mas então tropeço denovo no dinamismo. Não porquê eu não seja dinâmico, mas é que na verdade eu não estou meio seguro do real significado dessa palavra. Aí complica. E não sendo dinâmico, tampouco sou empático, nem apático, nem antipático. Quiçá simpático. E também não sou um exímio estrategista, nem o suprassumo da liderança e menos ainda o mais ético de todos. Perco fácil o meu auto-controle, esbanjo mau-humor e sou péssimo em relações inter-pessoais. Minha miopia atrapalha a minha visão do futuro e a minha falta de tato prejudica o meu senso de urgência e a minha perspicácia. Puxo todas as portas escrito push e só me destaco mesmo é na língua do P. Isso sem falar do meu potencial comunicativo que é afetado enormemente por um antigo e grave problema crônico: o mau hálito, que nem a mais concentrada das balas de gengibre e nem a mais forte macumba do Pai Gabriel é capaz de curar. Caso perdido..

Mas ó, o negócio é o seguinte: eu bem sei que não sou o cara perfeito nem pra sua empresa, nem pra sua companhia, nem pros seus negócios e nem pros seus planos. E também não sou nem um pingo hipócrita de escrever tudo o que eu não sou. Por isso, quando você for analisar um currículo, que obviamente não será o meu, cuidado! C pode até V, mas que fique bem claro: as aparências, principalmente as obtidas por um curriculum, enganam. E muito.

O fantástico mundo dos caracteres

Repare comigo se as palavras, essas mesmos que estou redigindo, não são realmente meros veículos. E olha que eu não estou me referindo aos veículos de comunicação, afirmativa óbvia. Estou falando de veículos automotivos mesmo, aqueles que transitam sem cessar, jorrando fumaça, vencendo obstáculos, abrindo horizontes, encurtando espaços. Para que você possa entender um pouco melhor, vou lhe mostrar um pouco da diversidade desses inusitados veículos: por exemplo, note você as palavras grandes, como paralelepípedo. Elas nada mais são do que luxuosas limosines. Já as palavras com hífen são o exemplo mais nítido de um carro sendo guinchado por outro. Por outro lado, as palavras em capslock não passam de grandes caminhões carregando grandes cargas ao passo que as que têm cedilha, com certeza, necessitam urgentemente de uma ida ao mecânico, pois apresentam um sério problema de vazamento de óleo. Já os termos obsoletos nada mais são do que carros ultrapassados, jogados ao relento, que vivem empacando e enguiçando enquanto que as palavras estrangeiras são, é claro, almejados veículos importados.

No meio disso tudo, os pedestres, sendo muito bem representados pelas vogais, circulam perigosamente por essas vias malucas. No meio dessa população, podemos identificar o a craseado como um jovem de topete a lá Tim Tim, o a com til como um garoto com cabelos ondulados e o com chapéu, um veterano da guerra. Já a vogal maíscula nada mais é do que um adulto enquanto a minúscula uma criança ou então, quando muito raramente, um simpático anãozinho. Além desses seres humanos, temos o ar da graça de alguns animais, como o temido S, uma cobra peçonhenta pronta a dar o bote fatal. Temos com o 1 a minhoquinha perfeita para a pesca, que vive de pé, incansavelmente. A tanajura, identificada pelo número 8, ostenta sua inesquecível bunda por onde passa. O pato, 2, vagueia por aí, sem destino e sem preocupação, ao passo que o caramujo, 6, vive sentado, como Rodin. E, como não podia faltar, as borboletas, representadas pelo número 3, exibem toda sua beleza e todo o seu fasfalhar por ondem passam.

Agora vale lembrar um ponto importante, fundamental para que esse trânsito flua ordenadamente: as sinalizações. A vírgula desempenha um papel imprescindível para que as palavras, ou melhor, para que os veículos não se choquem uns com os outros. Elas são usadas como quebra-molas, fazendo com que os automóveis reduzam a sua velocidade, para então partirem em disparada novamente. Já as reticências, como eficazes lombadas eletrônicas, obrigam os automóveis à uma forçada desaceleração. Os 2 pontos são uma grande placa vermelha escrito PARE! e o ponto e vírgula uma infeliz rua sem saída. Os parênteses, assim como as chaves e os colchetes, são condomínios fechados e as vias de mão dupla são simplesmente sinalizadas pelo símbolo de igual. As barras são as cancelas dos pedágios e dos estacionamentos pagos e acabam virando barras verticais quando permitem a passagem dos veículos. O jogo da velha, que no caso não é um jogo, nos sinaliza um cruzamento ferroviário, o que também não deixa de ser velho, enquanto que o ponto de interrogação é um desvio qualquer. O de exclamação, virado de cabeça para baixo e, infelizmente muito comum, indica um trecho com um buraco logo a frente e as arrobas indicam, para a felicidade das palavras andarilhas, a serra abaixo, por onde as ondas ecoam os seus shuás num eterno e delicioso vai-e-vém. Já os espaçamentos entre um veículo e outro representam a famosa distância de segurança entre um carro e outro ao passo que o travessão funciona como uma grande ponte, ligando 2 extremos. As aspas, por sua vez, sinalizam perfeitamente um comboio ou então uma passeata e o famoso underline, também não menos importante do que os demais, é o clássico bueiro, abrigo de ratos e escape das chuvas.

Já o ponto final, ah!, esse sim é o mais intrigante! É ele o destino final de toda a trupe semântica. É onde tudo se estaca e dá a impressão de que esse aglomerado de veículos acima é um congestionamento caótico, uma desordem total, um trânsito infernal. Porque nesta placa, para a alegria dos nossos ancestrais e daqueles que, como eu e Nelson Rodrigues, ainda conservam uma aversão ao prazer cretino da velocidade, há um inscrito bem incisivo, que simplesmente alerta: proibida a entrada de veículos

Elevador

 

Se um dia eu tiver de morar em um edifício, com certeza, vai ser no térreo. Andar de elevador, pra mim, é a situação mais constrangedora que uma pessoa pode passar numa vida inteira. Que situação! Olhe bem, temos de dar bom dia logo às 7h da manhã - um absurdo sem igual. Também temos de parar para dar carona aos intrusos que sempre perguntam antes de entrar - Tá descendo ?, enquanto o tico se remói a muita custas para não dizer – Não, tá parado. Somos também condenados, sem apelo e nem recurso, a sentir no fundo das narinas aquelas loções que deixam o leite de rosas no chinelo. E, por fim, balançamos sempre a cabeça concordando com a sempre bem lembrada colocação de um dos caronistas: - Calor, né?. Preocupação perene. Pior que tudo isso, só indo pelas escadas.

Por outro lado, pegar um elevador tem lá também os seus ensinamentos: só quem aperta o botão para chamar o elevador uma vez na vida descobre realmente o significado da palavra eternidade. Que demora. Andar de elevador também nos ajuda a desenvolver a capacidade impressionante de olharmos para o nada e de nos concentrarmos no nada. Muito mais terapêutico que yoga e shiatsu juntos.

A parte boa de pegar um elevador, pra mim, é que ele sempre representa a chama acesa da esperança para poder conhecer aqueeela vizinha. É a oportunidade infinita. A porta escancarada. A luz no fim do túnel. Nada mais me motiva a apertar o botão da eternidade do que a minha imaginação abrindo a porta e fazendo todas as cortesias e gentilezas para aquela colega desconhecida de andar. Pequenos prazeres.

Eu também estou quase convicto de que todas as pessoas que já tenham cruzado no elevador algum dia comigo suspeitem que eu seja um tímido descomunal ou um mal educado de primeira. A grande e única verdade é que a idéia de começar um assunto sem poder terminá-lo é algo que não me seduz nem um pouco. Talvez seja daí a natureza das conversas que nunca chegarão a lugar algum, como as adivinhações metereológicas de prache como - Vai chuvê, hein?, até os palpites futebolísticos do tipo - 4x0 pro Mengão hoje, fácil..

Mas, enfim, o elevador, além de fazer o nosso humor despencar de cima para baixo em uma fração de segundos, tem uma outra grande função: a de propriamente elevar a dor. A dor indescritível, incalculável e interminável do silêncio.

Pazciência

 

Revistas velhas embaralhadas, sofás desconfortáveis, suspiros aleatórios. Uma rádio qualquer ensaiando uma música de fundo. Silêncio. Infindáveis cruzadas e descruzadas de pernas incomodadas. Saias, jeans, chinelos. Celulares. Um galão de água e vários copos descartáveis no lixo. Um entra e sai escalonado em largos intervalos. O tic-tac incessante de um grande relógio de ponteiros distante. Cochichos. E, no meio disso tudo, uma descoberta pertinente. A de que somos tratados como pacientes antes mesmo de realizarmos a nossa consulta. Seja bem vindo, se é que assim podemos dizer, à sala de espera. 

O ser humano

O ser humano é um ser tardio. Demora pra aprender. É teimoso, perseverante e sempre muito esperançoso.  Millôr Fernandes (quem mais?) pontuou magistralmente essa situação: quem vive de esperanças morre muito magro. Não que cultivar esperanças esteja errado mas persistir no mesmo erro duas vezes é pura tolice.

A espera é a ferrugem da alma. O homem demora um ano para pedir a mulher em casamento. A mulher noiva, em forma de vingança, demora um ano para chegar à cerimônia. A polícia tarda em atender ao chamado, o ônibus em chegar, a chuva em passar, a fila em andar, o fim de semana em se aproximar. As únicas coisas que realmente demoram um ano pra chegar são: o décimo terceiro, as férias e, é claro, o nosso aniversário. O resto é bobagem. Tardam mas nunca falham.

Nós, por outro lado, falhamos. Dia-a-dia. Tardamos em perdoar, cultivar, agir, ceder,  aprender e viver. A cada 365 dias, os erros se renovam e se repetem.  A roda gigante gira sem cessar, na mesma levada e no mesmo compasso esganiçado de sempre. Despacito. E é por isso que, coincidência ou não, somos chamados de ser hum ano.  Porque a cada ano, que insiste em passar cada vez mais depressa, descobrimos que é impossível desvendar todos os mistérios dessa coisa maravilhosa chamada vida.

Garçom

 

Se todas as mães de garçons soubessem que seus filhos virariam garçons, não teriam sequer o trabalho de registrá-los em cartório. Quem chama algum garçom pelo nome? É incrível como criamos uma intimidade com os garçons sem nem mesmo conhecê-los: hey hey, o irmão, o brother…o meu chapa! Mas também, as mães não fazem a menor questão de ajudar. A última vez que fui tentar ler o nome de um garçom no crachá, desisti: Adalgamir. Melhor amigão, vai. Amigão encerra todos os problemas numa fração de segundos e faz com que nós não corramos o risco de chingar, naquela altura do campeonato, o nosso mais novo amigo – Agaldamir, Algadamir, Alagadamir, etc.

Engraçado como há uma variedade imensa de garçons. Sempre tem aquele que não perde nada, nunca. É o grande vencedor. O chamado campeão – ô campeão, traz mais uma pra nós. Todo garçom é torcedor. Essa é uma lei tão natural como a da ação e da reação. Ou ele é corintiano ou ele é palmeirense. Batata! É só chamar, pedir as fritas e correr pro abraço. Existem também aqueles garçons que nem mesmo batizando nossa filha já viraram cumpadres. Existe o chefia, o parceiro, o camarada. Há também os garçons substantivos como o amizade, o malandragem, o gentileza. Tem também o garçom vira-lata, que só atende com aquele assobio maroto ou aquele psiu agudo. Tudo ao gosto do freguês.

Outra verdade irrefutável é a de que os garçons detêm o elixir da longa vida. Por mais que passe o tempo, que as rugas brotem, os cabelos esbranquicem e a coluna entorte, todo o garçom, via de regra, é tratado como moço. Você há de concordar também que tem sempre um garçom que é cego ou surdo. Quando ele é cego, aquela acenada costumeira passa despercebida pelos seus olhos, como se o cliente estivesse meramente espreguiçando, estralando a costela e esbanjando falta de educação em pleno bar. Impressionante essa capacidade dos garçons de olhar e não ver. Aí partimos para o assobio e os inconfundíveis “ou, ooou”. Quando ele é surdo, não há tenor que resolva o problema. O negócio é partir para as acrobacias. Acenos de mão, olas, polegares..

Garçom, além de ser um ser muito versátil, tem o saco lá em Júpiter. Agüenta cada uma…tem que dar a saidera, descontar o couvert, suportar as borrachiches alheias e esperar como um santo a última mesa do bar. É muito bambolê. E tudo isso pelos míseros e ínfimos 10%. Ou por essa paixão irresistível de não ter inimigos.

Dores de cotovelo

 

O açúcar, que é uma delícia, dizimou civilizações, enriqueceu impérios, escravizou povos e fez eclodir inúmeras guerras ao redor do mundo. Nos dias de hoje, há um objeto delicioso também, símbolo máximo do capitalismo e do egoísmo, mas que ultimamente tem dizimado a minha paciência e feito eclodir uma série de desconfortos: o tão polêmico encosto de braço. Como é bom ir ao cinema e ao teatro, se afundar na cadeira e descansar os dois cotovelos nos encostos com muito prazer e nenhuma preocupação. E sem vizinhos também, é claro. Como já diria um belo ditado: ame seu vizinho, mas faça sua cerca. E se aposse do encosto central o quanto antes.

O inventor desses encostos, sacana por natureza, plantou a semente da discórdia há muito tempo. Semente essa que floresceu também nos aviões, ônibus e muitas salas de espera. Nos ônibus, onde se passa mais tempo em exaustivas viagens, o assunto é sério. Hoje em dia, quando vou comprar uma passagem, já não me interessa se é corredor ou janela. Eu quero mesmo é a posse do encosto de braço do meio! - afinal, a quem ele pertence ? Aquele encosto não foi feito pra 2 braços. Ele foi feito pra quem chega primeiro. Pra quem é mais forte. Pra quem é perseverante. Pra quem adora uma disputa. Não adianta nadica de nada ter o encosto da esquerda pro braço esquerdo. E o direito ? Coitado. Fica desamparado, sem direção. Com inveja, quiçá ? O encosto do meio é o ponto de equilíbrio de tudo. Ideal para se ler, para dormir, para repousar ou para simplesmente se ostentar. Pode reparar: todo mundo que está no comando dos 2 encostos traz ares melhores, auto-estima, confiança, estabilidade, conforto e um sorriso de triunfo sem igual. Sensação de poder absoluto. O do lado, sem jeito, traz os braços cruzados, a postura desfeita e os ombros derrotados e cabisbaixos. Mas nunca entregue. Sempre vigia. Ao menor movimento do colega, uma coçadinha naquele piolho e pronto: nova hierarquia. E é assim durante a viagem inteira. Cochilou, o cachimbo cai. E o cotovelo também. 

E tem também aqueles casos onde se espera o inimigo dormir e se larga um sutil cutucão, com classe, que declara um novo golpe e um novo líder no poder. Jogo sujo. Jogo justo. Para se manter no poder, é necessário que se abra mão de algumas vaidades. Nada de banheiro, nem de descidas para comer, nem nada que faça os cotovelos desgrudarem dos tão desejados encostos. Um preço barato pelas recompensas. Pelo equilíbrio. Pelo bem-estar. Pela felicidade barata conquistada em pouco mais de 3 cm.

A conclusão a que se chega disso tudo é muito simples: não ter aonde apoiar o cotovelo, eis o grande significado das dores de cotovelo.

O enigma das árvores

 

As árvores são poesia pura. E ciência também, já diria Newton. Mas as coisas estão mudando. As árvores caminham para uma degradação natural. Nada mais é como antes. O perfume exalado não é mais o mesmo e os frutos concebidos tampouco. Veja bem o caso das nozes: elas já não querem nem nascer. Se trancam numa casca mais dura que concreto. O que direi então das macadâmias, dos cocos e dos amendoins japoneses?

Antigamente, acredito eu, as árvores viviam felizes. Respiravam ar puro, cultivavam belas folhas e cantavam ao som do vento. Hoje, tudo está virado ao avesso. Elas estão amargas. Agora quando o vento as convida para cantar, elas roucamente uivam e gemem. Muitas delas vêem dia-a-dia suas descendentes serem duramente assassinadas a machadadas, motoserradas e até facadas. Tanto é o rancor e o trauma que algumas até começaram a desenvolver espinhos. Frágeis que estão, muitas delas ao serem embaladas pelo mais suave dos ventos, ao invés de dançar e requebrar como faziam antigamente, preferem embarcar numa viagem suicida. É um caso sério. Nos casos mais extremos percebe-se que algumas árvores, por meio das plantas, desenvolveram um veneno natural para se vingarem dos humanos.

Essa vida das sedentárias árvores se resume a apenas uma palavra: cansaço. Elas já não agüentam mais protestar por uma vida mais digna e justa. Com a ajuda do vendaval de outono, elas sacrificam dezenas de folhas. Com as tempestades, assim como os kamikazes japoneses, elas se jogam nos carros, nas casas e nas ruas. Os frutos já nascem podres. O perfume azedo, o tronco frágil, os galhos bambas, as folhas secas e as raízes mortas. E tudo isso pura e simplesmente para chamar a atenção. E sabe por que ? Porque elas estão fartas. Fartas de gritar e não serem ouvidas. Tanto é verdade que, para azar da poesia e da ciência, sem exceção, todas nascem mudas.

Tempestade

Era um dia extremamente eufórico no céu. Milhares de espíritos que agora gozavam de vida eterna estavam se preparando para o encontro marcado com o Todo Poderoso. Todo domingo era dia de Purgatório. E todos os ingressantes dessa semana, apreensivos e preocupados, estavam reunidos. As nuvens, lentamente, iam se juntando e acomodando para formar o palco do espetáculo que iria definir a sorte e o rumo eterno de todas essas almas ansiosas. Em uma dessas nuvens, uma célebre frase de Shakespeare jazia pendurada: "Abstenha-se de julgar, porque somos todos pecadores.".E todos aqueles que a liam, sentiam um calafrio percorrer por toda a espinha invisível da alma. As últimas palavras, "somos todos pecadores", ecoavam e martelavam o pensamento de grande parte dos espíritos. Uns disfarçavam a consciência pesada, outros se julgavam puros como a água e vários outros entravam em prantos.

"Vamos para o inferno", lamentavam 2 amigos de longa data, pecadores assumidos, espíritos de porcos. Bandidos e criminosos achavam que por terem cumprido a pena estabelecida em Terra, teriam camarotes no Paraíso. Os políticos então se perguntavam quanto deveriam custar os votos dos anjos divinos que compunham a banca de jurados. Os vingativos, conformados e resolutos, apenas esperavam com impaciência a emissão do boleto de passagem para o inferno. A platéia estava cheia e alvoroçada. Os anjos foram chegando e ocupando seus postos. Deus não tardaria em chegar. As estrelas, convidadas de luxo, haviam deixado o expediente mais cedo para acompanhar aquele domingo imperdível. O céu, totalmente fechado e sombrio, com todos os presentes, abria assim o espetáculo.

A presença mais ilustre havia chegado vagarosamente. Avistou seus convidados com cautela. Eram diversos, milhares. Todos os olhares o seguiam, o admiravam, o saudavam. O respeito se transformara em silêncio absoluto. Deu boas-vindas, parabenizou à todos o desafio que haviam vencido e o papel que haviam desempenhado na Terra e começou a definhar sobre o motivo do encontro: o repouso eterno. Falou de tudo um pouco. Ele, como ninguém, conhecia cada alma e cada percurso. Deu uma palestra sobre o grande sentido da vida, os pecados, a fé, o amor e o ódio. Percorreu por outros assuntos diversos. E no final passara a palavra para seus convidados de honra propondo o seguinte desafio:

"Quero que atire a primeira pedra aquele que nunca cometeu um pecado se quer".

Todos se entreolharam assustados. Nos olhares trocados, todos se enxergavam como num nítido espelho. No fundo, todos eram pecadores. O pecado se mostrara irresistível. Ao se entreolharem, eles buscavam uma saída de mestre, pela tangente. A mentira também, nesse caso, ainda que ousada, era a melhor saída. Quem se atreveria a dizer ao Grande Mestre que já cometera um pecado ? Impossível. O inferno era muito aterrorizador e essa era a última chance de se escapar das ardentes chamas. Os espíritos além de pecadores eram covardes e sem iniciativa. Foi só então um deles agarrar uma pedra de gelo das nuvens e jogar para que a maioria se declarasse inocente e começasse a repetir o gesto. Foi em sequência um turbilhão de pedras de gelo atiradas. Uma pouca vergonha onde o pecado se repetia a cada gesto neste efeito dominó. A majestade divina e os anjos apenas observavam a cena vergonhosa com aqueles olhos sábios das divindades. E lá embaixo, os terráqueos, nada a par do fenômeno que acontecia a muitos metros acima de altura, abriam seus guarda-chuvas, fechavam suas janelas e julgavam erroneamente:

- São Pedro e suas chuvas de granizo.

Um dia de gato

                      

Logo pela manhã, acordara aos berros com sua mulher, histérica, reclamando de suas cuecas jogadas pela casa, de suas cervejas vazias espalhadas por toda a sala e da pirâmide imunda que suas louças formavam na pia. O dia prometia, constatou ainda sonolento. Mas ao invés de retrucar ou dar explicações, apenas abriu um sorriso enquanto espreguiçava e terminava de ouvir esses sermões matinais. Prometera a si mesmo que dali em diante nada o tiraria do sério. Instalaria então um zíper invisível na boca e engoliria como nunca esses sapos. Sentado na beira da cama enquanto olhava para sua mulher enérgica que andava para lá e para cá agarrando seus pertences jogados pelo quarto, pensou mil e uma coisas e sequer disse algo. Acabara de instalar um filtro poderosíssimo entre seu pensamento e sua fala.

Ciente disso, levantou-se, tomou banho, tomou café e tomou um táxi rumo ao trabalho. O taxista, conversador por natureza, viera reclamando de tudo durante o trajeto. Do prefeito, do trânsito, da chuva e da derrota na véspera do Corinthians. E ele, não entrando na dança, apenas concordava com tudo e pensava consigo: que cara mala, além de tudo é corintiano. Mas ele não só pensava antes de falar. Pensava e não falava.

Ao chegar na empresa, agarrou o elevador com aquela deusa grega do escritório que apenas conhecia de vista. Pensou na hora: ôôô lá em casa. Mas assim que a porta se abriu e ele entrou no corredor rumo ao seu gabinete, seu chefe viera a seu encontro cortando toda sua imaginação fértil e o convocando para uma ‘conversinha’ em sua sala. “Logo cedo”, praguejou ele com seus botões. Sempre que conversavam, acabavam discutindo. Mas agora seria diferente, afinal, ele era um novo homem. Transformaria as conversas agora em simples monólogos. Seria simples: seu chefe mandaria e ele obedeceria. E assim foi. Recebeu alguns elogios, algumas críticas, algumas tarefas e ao sair da sala, despediu-se com apenas um pensamento: adeus babaca.

Chegara finalmente em sua sala. Estava indo bem até ali, usando muito mais as suas 2 orelhas e a sua imaginação do que a sua boca. Respirou satisfeito e começou a trabalhar. Quando a hora do almoço começou a se acercar, recebeu uma ligação de um amigo de longa data, que precisava partilhar de um ombro amigo. Foram até um restaurante tradicional e acolhedor. O almoço inteiro ele passou escutando o seu amigo, que desconfiado da fidelidade da sua mulher, vivia de bar em bar, desconsolado com a vida. Olhando o amigo naquele estado submisso e projetando chifres imaginários em sua cabeça, quis falar o que lhe vinha na sua cabeça: você está acabado, seu chifrudo. Mas não ousava machucar ainda mais o amigo. Por isso, ao se despedirem, preferiu abrir um abraço caloroso ao invés de abrir a boca.

Voltando ao trabalho, num dos corredores da empresa, deparou-se com aquele puxa-saco de primeira que fez a maior festa quando o viu, soltando rojões, abraços e apertos de mão. Sem ensaiar nenhuma retribuição, apenas pensou forte: evapora. Ao chegar em sua sala, pôde trabalhar tranquilamente até o finzinho da tarde, quando então fora interrompido por uma visita inesperada daquele que era o maior invejoso da empresa. O sujeito chegou fazendo mil elogios vazios e juras de amizade que foram recebidos com um olhar indiferente, sarcástico e que se pudesse falar, teria dito: hipócrita. Depois de despachar o colega amistosamente, seguiu para casa.

Chegou primeiro que sua mulher. Foi até a cozinha, abriu a geladeira e retirou uma bela lasanha, sua comida predileta. Esquentou seu prato e começou a comer. Enquanto comia, resolveu fazer um retrospecto do seu glorioso dia. Um dia ímpar em sua vida, onde os pensamentos davam lugar às falas. E os atos impensados poupavam arrependimentos. Não havia ferido ninguém. Tampouco discutira, insultara ou desapontara alguém. Havia se portado como nunca. Transformara aquele que era para ser um dia de cão em um dia de gato. Um gato sábio chamado Garfield.

Profissão: colher

                                

Quem disse que as colheres não se cansam ?

Só porque elas jazem horas, dias e até semanas dentro das gavetas, acostadas umas com as outras numa espécie de suruba, em compartimentos vizinhos às das facas e garfos, não quer dizer que elas não mereçam um descanso. Ou então que elas não se misturam com as outras raças. Elas dão um duro danado quando são solicitadas, como ficará comprovado nas próximas linhas.

Pra começo de conversa, é preciso frisar que as colheres acordam cedo, bem cedo. E cada uma delas desempenha uma função diferente. Cada dia na vida das colheres é uma incógnita, um destino diferente. Por exemplo: uma colher jovem, geralmente cedinho, vai direto da gaveta para o copo de leite com Nescau. Outras vezes é pro leite com sucrilhos ou então para o prato com banana amassada.

A colherzinha ainda bem criançinha, treina também acordando cedo para se infiltrar nas xicrinhas de café. Trabalho infantil descarado. Algumas delas chegam a passar a infância inteira dentro de um açucareiro.

Há aquelas maduras, que estão sempre girando nas panelas com arroz ou então transportando sal. As colheres adolescentes, nem muito adultas nem muito crianças, não saem da mesmice. Sempre estão misturando açúcar na xícara de chá, pegando Nescafe ou então lambuzando a cara no doce de leite.

As mais robustas prestam seus serviços nos caldeirões onde se encontram as tripas de feijoada, a paeja e o arroz carreteiro. Trabalho dobrado. Muitas vezes, recorrem à ajuda das conchas, que cobram um preço mais caro pelo serviço diferenciado oferecido.

Isso tudo sem falar nas colheres de plástico, que coitadas, já nascem com osteoporose. As de pau, como o próprio nome já diz, servem de pau pra toda obra. As colheres privilegiadas de uma beleza, ou melhor, de um design reluzente, seguem carreira de modelo e vivem penduradas nas paredes ou estiradas nas mesas, ostentando todo seu glamour.

Há também aquelas colheres que vivem de free-lance. Todos os dias na hora do almoço, elas estão na mesa, para ajudar a servir os purês de batatas, suflês, carnes e sobremesas. Depois elas se recolhem pela tarde, tomam uma ducha refrescante na torneira, se perfumam com detergente e se estiram no escorredor, cheirosas, até serem convocadas para o outro turno do dia, a janta, que às vezes, é de gala. Volta e meia, passam suas tardes proseando com seus amigos garfos, facas, abridores e pegadores. Quando o jantar é importante, elas chegam brilhando na festa, acompanhadas de um guardanapo de pano e um descansa talher, que substituem à altura o smoking e a bengala. De noite a carga horária diminui e muitas delas dormem fora de casa. Algumas passam as noites na companhia das formigas. Outras se acostam com as baratas. E as mais cansadas ficam de molho relaxando a musculatura.

E por último também, como eu ia me esquecendo, existem aquelas que esquecidas ou já muito velhas, gozam de férias permanentes nas gavetas.

Pois bem. Depois de todo esse meu estudo introspectivo à respeito das colheres, através de um olhar meio científico e observador, descobri que elas trabalham como ninguém há muito tempo. E a prova mais viva disso é a herança genética que elas carregam fruto desse labor diário: nascem todas com escoliose. Ou seria, escolherose ?

E se..

Tempos atrás escutei uma daquelas frases que entram na nossa cabeça para nunca mais sair. Dizia mais ou menos assim: “A história não admite o ‘se’”. “Se” Napoleão tivesse invadido a Rússia, “se” a Alemanha tivesse ganho a guerra, “se” Vargas não tivesse se suicidado. Enfim, os “se’s” nos fazem mergulhar em um mundo mágico de imaginações, hipóteses, especulações, teorias e desejos. Como é bom brincar de redesenhar estradas que já foram pavimentadas, fatos que já foram consumados, destinos que já foram traçados. É tão boa a brincadeira que eu me pergunto como seria se D. Pedro I pudesse reviver o dia da independência nos dias de hoje. Sim, ele mesmo, o primeiro imperador do Brasil, aquele que nos libertou do domínio português, que foi o grande protagonista do Dia do Fico e, em poucas palavras, que ainda é o maior ícone de nossa história.

7 de setembro de 2009. Enquanto do lado de fora do palacete os raios de sol ensaiam as suas primeiras pinceladas, do lado de dentro D. Pedro arruma sua espada na cintura, dá o último retoque na sua armadura e se prepara para montar o cavalo que o levará rumo às margens do Ipiranga. Logo ao por as patas de seu cavalo imponente na rua, D. Pedro junto com sua escolta e seguidores, começa a refazer o caminho que o levará a reviver muitas emoções. O único empecilho que D. Pedro não estava esperando era a multidão de rodas que começou a se amontoar ao redor, na frente e atrás de sua comitiva. Nunca havia visto um automóvel e sequer enfrentado um trânsito. Buzinas muito menos. “Como os tempos mudam”, pensou ele, fazendo uma rápida viagem comparativa ao passado. Mais era assim, assim tinha que ser, a vida tomava seu curso. O trânsito paulistano era infernal, devagar quase parando. Os cavalos suados chacoalhavam suas cabeças estressados em meio àquela mistura ensurdecedora de gritos, buzinas e motores. D. Pedro então, em nome dos cavalos e dele mesmo, resolveu inventar um atalho, cortar um caminho, mesmo que não soubesse como. Foi abrindo espaço no meio dos carros graças a agilidade de seu eqüino e se metendo em ruelas que ele nunca, nem mesmo séculos antes, havia cruzado. Virava para lá, andava um pouco, dobrava ali, entrava cá e ia segundo seu instinto, fugindo do trânsito e, sem saber, das margens mais famosas do Brasil.

Foi indo, indo, indo até adentrar um lugar remoto. Um cenário lastimável, onde inúmeros resquícios humanos, seres feitos de mais osso do que carne, se encontravam jogados nos cantos da rua ao relento, em condições sub-humanas, murmurando palavras incompreensíveis e fumando algo que estalava e que ele nunca vira em sua vida, nem mesmo ouvira falar. Era aterrorizador o ambiente, degradante, perturbador. A legítima escória da sociedade. Zumbis em busca de carne. Vampiros em busca de sangue. Drogados em busca de crack.

Sem saber como, ele teve um pressentimento. Ganhara uma chance de reviver esse dia magnífico e o destino o levara até ali. Nada era por acaso, pensou, olhando ao redor com os olhos incrédulos. Chegou a conclusão de que era ali a margem do Rio Ipiranga dos dias de hoje. Em meio a este cenário horripilante, D. Pedro ganhou forças e reuniu toda aquela cambada de semi-indigentes, reféns de prazeres baratos e mundanos, pobres dependentes químicos. Encheu seus pulmões de ar, ergueu sua espada e recitou sua célebre frase em tom de advertência e conselho:

- Independência ou morte.

E enquanto recitava, ele mesmo percebeu que mesmo depois de mais de um século, essa frase ainda fazia mais sentido do que nunca.

Luz, câmera, respiração

- Sniff, sniff..

Foi assim, dessa forma mesmo, o gesto inaugural do bebê Floriano. Ele não chorou, não esperneou, não riu e nem sequer espreguiçou. Simplesmente soltou uma bela de uma farejada. E só depois desse ato inusitado, seu coração começou a bater, seus olhos começaram a se abrir e seus ouvidos por fim começaram a escutar. Os médicos surpresos se entreolharam, os pais muito emocionados nem perceberam e as enfermeiras despreocupadas pouco se lixaram. Somente ele próprio, Floriano, saberia tempos mais tarde, que havia nascido com um sentido apuradíssimo, poderoso e muito, muito recompensador, como ele também viria a descobrir.

Do seu nascimento até mais ou menos os seus 20 anos, nada de muito notável havia acontecido quanto ao seu olfato. Tinha uma vida peculiar, família acolhedora e amigos de confiança. Aproveitara sua infância e adolescência intensamente e só agora travava os primeiros contatos com aquela palavra que muito escutara e pouco conhecia: a saudade. E foi na descoberta do verdadeiro sentido da saudade que ele redescobriu o seu maior aliado no equilíbrio da vida, uma solução que estava bem na ponta do seu nariz, literalmente: o olfato. Foi aos poucos, é claro.  Com uma fungada ali, outra acolá, ele foi aos poucos descobrindo que podia reconstruir na sua cabeça momentos passados e experiências vividas tão nitidamente como um arco-íris estampado naquele inconfundível azul celeste.

Era só o vento trazer aquele cheiro de chuva que tudo já vinha na sua cabeça: banhos de chuva memoráveis e intermináveis com seus grandes amigos da vizinhança. Também reconstituía aquelas tardes chuvosas na casa de sua querida avó, debaixo das cobertas, vendo desenho animado e comendo sorvete caseiro. Floriano sorria, respirava mais fundo como se isso o ajudasse a relembrar ainda mais e sorria novamente.

Quando se deparava com flores, lá ia ele agarrar uma e mandar o clássico:

- Sniff..sniff..

E isso era tudo. Era mágico. O transportava, o deixava em transe. Viajava assim para qualquer lugar. Seu nariz era seu passaporte e seu transporte. Com as flores, ele voltava anos e anos para a piscina de sua casa bem arborizada, onde com 8 anos, se deliciava na companhia do seu irmão, nadando pra lá e pra cá, jogando e se divertindo felizmente.

As fungadas agora eram habituais. Faziam com que sua mente apertasse play no melhor dos filmes de Hollywood, ganhador de todos os Oscar’s de todas as gerações, onde ele, e só ele, era a estrela principal, rodeado dos melhores atores coadjuvantes possíveis, estrelados por seus amigos, seus familiares e seus amores.

Tudo na vida de Floriano corria bem, muito bem por sinal. Era só cheirar, imaginar e se deliciar. Correram anos e décadas assim até que um dia, quando Floriano faminto e debruçado na janela de sua casa enfrentava aquele domingo solitário, começou a sentir aquele cheiro de comida do vizinho. Começou seu ritual, fechando os olhos e cheirando, cheirando mais profundamente, mais e mais…até saber que aquelas pizzas do forno do vizinho o faziam lembrar as peripécias do governo brasileiro, suas falcatruas, palhaçadas e tudo que o deixava cada vez menos ufanista. E dessa forma, querendo escapar desse pesadelo e reconhecendo que seu sentido não era tão recompensador como ele imaginava, apenas constatou: “Nem tudo são flores.”

Geração Ai Ai Ai

    

   Os anos passam deixando saudades, boas memórias e uma coisa importantíssima: um legado. Foi assim até agora, desde os primórdios, um constante processo de aprendizado e evolução. E hoje, não podia ser diferente, o cenário é outro. Outro bem diferente daquele onde aquela linda menininha com os olhos brilhando e impecavelmente vestida com luvas, botas e meias até o joelho sentava serelepe na garupa da lambreta para uma voltinha com aquele paquera de jaqueta de couro, botas e topete atolado no gel. Também muito diferente de quando John Lennon não cansava de cantar nas rádios e onde não se falava de outra coisa que não fossem drogas, sexo e rock’n’roll. Não é o cenário da ditadura nem da repressão, nem da seleção promissora comandada por Zico, nem da brasília amarela dos Mamonas e nem das falcatruas do governo Collor. Estamos diante de uma geração que até chegou a herdar alguns resquícios de outros tempos, onde alguns ainda ligam seus iPods para escutar John Lennon e falar não sobre drogas, sexo e rock’n’roll mas sobre anti-depressivos, viagra e funk. Em outros tempos e outra geração, lhes apresento a Geração Ai Ai Ai.

   Meu pai sempre me dizia orgulhoso de sua época de jogador de bolita onde toda a garotada da rua se reunia para dar uns petelecos. Eu ficava tentando imaginar a cena, pois na minha recente infância, a prática desse nobre esporte já se encontrava em extinção. Chegava à conclusão que tudo não passava apenas de uma lorota, conversa para boi dormir, aliás, como eu era apenas uma criança, conversa para bezerro dormir. E assim vão pensar meus filhos quando eu lhes contar como eu era craque escalando jabuticabeiras, criando bolhas nos pés de tanto jogar futebol descalço na rua e na arte de se esconder brincando de esconde-esconde até altas horas na pracinha. Na verdade, o que acontece nos dias de hoje é um outro tipo de esconde-esconde onde as pessoas se escondem umas das outras através de uma tela e um teclado. O futebol descalço nas ruas virou FIFA Street. E as jabuticabas viraram meros produtos no Mercado Livre. Bolhas? Só nas mãos com LER.

   O que eu vejo cada vez mais nas ruas quando saio, são pessoas indo e vindo, apressadas, cheias de distrações, aparatos tecnológicos, celulares, fones de ouvidos, mergulhadas em seus próprios mundos. Essa geração, que eu particularmente apelidei de Ai Ai Ai, podia muito bem ser pelo seu caráter mesquinho, caracterizada por jovens mimados, alienados, virtuais e frescos. Também podia ser pela minha falta de paciência em falar dela ou até só de pensar em falar. Ou até então como um tom irônico, um suspiro, uma interjeição de dor. Mas não é. É somente por essa constante invasão que me incomoda de iPods, iTouchs, iPhones..

   E agora eu posso suspirar aliviado por esse meu desabafo e satisfeito pela infância maravilhosa que pude ter.

   Ai ai ai…

Cromoterapia

   Escocesa. Era essa a nacionalidade de Jonathan, um dos maiores aficcionados por cores que o mundo já pode conhecer. Alguns podem pensar que ele era apenas mais um no meio da imensidão de loucos que perambulam por essa estratosférica Babilônia, defendendo e seguindo suas loucuras e utopias. Mas não. Jonas, como então gostava de ser chamado, foi único e sublime, uma das grandes almas que sonhava em ver um mundo melhor e mais colorido.Traçou ainda jovem um único propósito na vida: analisar o mundo através das cores. Desenrolou em uma mesa um grande mapa mundi, estudou os mais diferenciados países, pesquisou e se aprofundou  nas mais variadas culturas e definiu seu percurso começando sua jornada pela cor branca, a mistura de todas as cores. 

   Aterrissou na Índia, país de origem do maior pacifista que o mundo teve a honra de conhecer: Mahatma Gandhi. Fascinado pela sua história e seu poder de persuasão que comoveu toda a nação hindu, Jonas viveu intensamente a cultura indiana por um bom tempo, saboreando todos os resquícios da paz espiritual deixadas por Gandhi. 

   Indo do branco ao preto, Jonas saiu com a alma renovada até posar na África quando um outro sentimento o inundou ao entrar em contato com um continente eternamente em luto que possui um passado negro, cheio de muito sofrimento, exploração e pobreza. Anos e anos de exploração que resultaram em uma nação em constante guerra civil e palco da mais desoladora miséria e fome.

   Jonas estava em choque. Mesmo assim, seguiu caminho para o Iraque onde segundo seu roteiro desbravaria a cor vermelha. De cara, quando saiu do aeroporto, colheu suas amostras avistando diversos corpos destroçados no chão, jorrando sangue, apodrecendo e se decompondo. Da esquerda para direita e de frente para trás, tudo, literalmente, se resumia à sangue. 

   Pouco tempo depois  Jonas partiu para os Estados Unidos onde foi moleza para ele, ao avistar aquela vastidão de automóveis e fábricas jorrando fumaça, saber que este país com certeza era um dos países mais poluentes do mundo e no entanto associável à cor cinza.

   Até então Jonas estava incrédulo. Sua composição de cores estava longe de formar algo parecido com um arco-íris. Resolveu relaxar e ir em busca da cor azul e se mandou para Cuba. Chegando na região caribenha, ficou estupefato. Céu e mar, fazendo uma incrível sintonia, irradiavam um azul que dispensava comentários. Os dias se seguiram à base de mojitos, charutos e muita curtição.

   E assim foram se passando os anos para Jonas, que desbravava o mundo sedento através dos novos significados que dava às cores como em sua ida à Costa Rica que  segundo uma pesquisa era a nação mais feliz do mundo e onde entrou em contato com a cor amarela, indo do outro lado do mundo ao deserto do Atacama e explorando a cor marrom daquela imensidão terrestre e depois à Holanda para explorar a cor laranja.

    Quase no final de seu percurso e muito apreensivo por finalizá-lo, Jonas consultou seu roteiro e avistou a cor verde marcada no mapa e o destino: Brasil. Apreensivo e ansioso, tomou um avião e já enquanto sobrevoava a região amazônica pela janela, procurava já algum sinal dessa gigantesca área verde que lera tanto e o seduzira. Mirava, mirava e nada. Aterrissou, desembarcou e foi em busca de informações para conhecer a famosa Região Amazônica e então fora informado que já quase nada restava, tudo fora destruído, desmatado, queimado e quase toda a área havia se tornado infértil e desértica. Incrédulo e vendo todo seu árduo trabalho de anos e anos de pesquisa se evaporar, Jonas empalideceu, se sentou e viu seus olhos se encherem de lágrimas comuns e incolores, que na verdade ilustravam a sua nova visão do mundo após todas essas viagens e conhecimentos acumulados: um mundo sem cor nenhuma, vazio e transparente.

Miguelices

 

  Acabara de se sentar e acender um cigarro. Bem relaxado no entanto, Miguel começou a escutar uns sons estranhos, bem nítidos e que se assemelhavam muito com bombas, explosivos e rajadas de tiros. Era uma sequência estrondosa que dava algumas pausas em pequenos intervalos e logo irrompia no ar denovo, despertando ainda mais a curiosidade aguçada do então tranqüilo Miguel, que se punha a pensar e imaginar de onde vinham tais estranhos barulhos. Despreocupado, imaginava e mirabolava várias e diversificadas hipóteses, nunca imaginando o pior, afinal, Miguel não vivia na favela, pelo contrário, muito longe do subúrbio e de qualquer perigo.

  Passado algum tempo começou a pensar mais seriamente no que realmente poderia estar acontecendo, talvez alguma confusão na vizinhança envolvendo algum militar, sargento, policial ou até mesmo um conhecido seu que era Brigadeiro do Exército. Foi então que subitamente as rajadas começaram a diminuir, lentamente, até cessar completamente e esclarecer tudo na cabeça de Miguel que olhou para o lado, avistou um rolo de papel higiênico, usou-o, apagou o cigarro, se levantou, puxou a descarga e resmungou aliviado:

- Maldito brigadeiro quente…

Santo papo

  
Em um de meus esporádicos encontros com São Longuinho, a majestade dos achados, capaz de encontrar nos mais remotos lugares os mais diversificados objetos e de consequentemente nos salvar das mais angustiantes sensações que a perda nos proporciona, me achei na intimidade e no direito de incumbir-lhe uma missão que há tempos eu buscava realizar sem o auxílio de seus incontestáveis poderes. Não me contendo de curiosidade e fracassado em meu objetivo, assim lhe disse:

- São Longuinho, São Longuinho..fico a buscar, muitas vezes, o maior tesouro que a humanidade perdeu, há tempos. Fiquei muito tempo a procurar o falado “amor ao próximo” e ao ligar a televisão ou abrir um jornal, quando sangue me é espirrado, não me resta muita esperança em seguir na luta. É a permanente guerra no Oriente Médio, guerras dentro da família, guerras no trânsito, guerras na rua..guerras no dia-a-dia. Andam nascendo mais Judas do que Jesuses. E a bondade aonde teima em se esconder? Aquele braço amigo, que hesita, para levantar aquele que vive de tropeços. O sorriso sincero dá lugar ao olhar invejoso. Mendigos e indigentes que seguem de bolsos vazios, sem nenhum ombro para acostar e muito menos um ouvido para ouvir-lhes as injustiças que a vida lhes acometeu. Milhões de crianças que jazem desnutridas, vítimas da miséria e fome que assolam o continente africano, sendo acompanhadas pelos olhares míopes e as mãos fechadas dos poucos adinheirados que não ajudam anonimamente mas fazem questão de expressar publicamente cada centavo que dizem ter doado, tudo em prol do marketing pessoal. O mundo já desconhece a palavra dividir..não querem dividir alegrias, ganhos, pães e vinhos. Querem multiplicar patrimônios, riquezas, dinheiro e poder. O tal do “eugocentrismo”. Eu, eu, eu.. E no embalo eu fico a te perguntar São Longuinho, cadê a humanidade, o sentido da vida, o espírito coletivo, o amor onipresente e a pureza do ser que restava desse mundo?

E então, São Longuinho, carregando toda sua expressão cética e inabalável, nada contaminada por toda a emoção que eu havia impresso na queixa, depois de poucos segundos, me contesta:

- Me desculpe, meu filho. Se existe uma única coisa, que eu não posso encontrar, modéstia a parte, é o que nunca existiu.

E eu, atônito, conformado e maravilhado, parte com a sua sabedoria e parte pela minha falta de perspicácia, sigo com meus pensamentos:

- E eu, achando que tinha pego São Longuinho no pulo…

Guerra dos pelos

Graças as minhas indas e vindas da faculdade acabei descobrindo a existência de um fenômeno muito comum mundo afora e ônibus adentro. Um fenômeno molhado por assim dizer que acontece geralmente nas horas de pico de cada dia e que eu apelidei singelamente como a guerra dos pelos.

Tudo começa no terminal, de ônibus, digo. No terminal encontram-se diversos tipos de combatentes que armaram seus sovacos, cabelos, pelos púbicos e demais pelos públicos com o mais seleto arsenal de desodorantes, sabonetes, xampus, perfumes, loções, tênis-pés e fragâncias. Mas é somente ao passar pela catraca do ônibus que a guerra realmente começa e a sauna ambulante se transforma em um campo de batalha onde os pelos se rebelam de diferentes formas para alcançar o objetivo supremo e causador da maioria das guerras: a conquista de territórios, leia-se, espaços.

Durante o dia, o sol escaldante torna a batalha mais intensa e é quando mais sangue, aliás, suor, se derrama. Geralmente nas horas de pico a melhor estratégia para se adotar é a de trincheiras, visto que os espaços a serem explorados são quase inacessíveis, devido a superpopulação de combatentes. A guerra é tensa e tem seu estopim geralmente com aquele pinguinho que lentamente se arrasta em movimento descendente das axilas à cintura, resultante do excesso de contingente que significa mais ladrões de oxigênio e consequentemente uma temperatura ambiente exorbitantemente alta e abafada. Enquanto isso nas pernas, encerradas pela calça, se desenrola uma furiosa revolta que em poucos segundos se transforma numa chacina, se encharcando todinha. Nos pés, o apelo dos pelos, minorias e na condição de isolados, é indiferente o que faz com que eles acabem aceitando a condição claustrofóbica a que são submetidos pelos tênis e sapatos. Na testa e costeleta o tiroteio de gotas é suave, o que confirma a reputação dessa área, guardiã da serenidade, de ser pacífica e neutra. Mas agora, onde o circo pega fogo mesmo, é no cofrinho e no sovaco. É lá onde estão os verdadeiros soldados, tiros de guerra, que dão a vida pelo seu país(corpo), que são fiéis a seus princípios, que lutam por um pouco mais de ar refrescante no ambiente e por que não liberdade(camisas regatas)? É no sovaco onde a guerra realmente se alastra em dose dupla, formando uma grande área de extermínio debaixo de cada braço, sem dó nem piedade, principalmente dos outros combatentes(passageiros)

Existem 3 tipos de combatentes. Os soldados, geralmente conhecidos como metrosexuais e vaidosos, que ao confrontarem-se com a primeira ameaça(gotinha descendente) sucubem e como covardes largam o conflito e descem no primeiro ponto. Os sargentos, não muito mais resistentes, acumulam algumas feridas(pizzas), trocam umas gotas mais intensas nas pernas e umas rajadas no sovaco mas também logo se mandam na primeira oportunidade. Agora, quem sofre e enfrenta mesmo qualquer parada, aqueles que ostentam as piores fraturas expostas e não gritam de dor(nojo), são os generais, aqueles que realmente soam a camisa, travam batalhas à base de granadas e bombas nos sovacos, dinamites nas costas, metralhadoras no cofrinho, enfim, dão mais que o sangue, o suor, até o final da batalha, quando então, conquistam a liberdade ao descerem no último ponto.

Toda guerra tem seu preço e essa não podia ser diferente. E eu, como uma das partes interessadas na trégua, até ja encontrei uma solução viável e plausível: a aquisição de ares condicionado. Mas enquanto o governo não se sensibiliza e adota uma postura, nós, combatentes do dia-a-dia, verdadeiros guerreiros, saímos de cabeça erguida desse conflito, mandando nossas cicatrizes toda noite para a máquina de lavar roupa, apoiando a nossa leve consciência no travesseiro e pondo a barba de molho, pois sabemos, que no outro dia, a batalha continua.

Fervereiro

Mamãe eu quero, mamãe eu quero, mamããããe eu quero..sambar! Quero samba, quero festa, quero espuma. Quero confete, quero serpentina, quero folia. Quero magia, quero loucura, quero fantasia..quero carnaval! Carnaval é tudo isso. E muito mais. Carnaval é sair mal intencionado pela noite, gastar os chavecos mais chinfrins e ficar sem consciência pesada. É apalpar inúmeras nádegas femininas, levar safanões e ficar numa boa. É beber, cair e levantar. É esquecer todas as besteiras da noite anterior e acordar sem ressaca moral. Carnaval é extravasar o lado brasileiro que temos com muito orgulho e sem nenhuma ordem nem progresso. É um período onde as regras dão lugar às exceções. Em poucas palavras, é uma experiência que se vive, não se explica. E com certeza, que nunca enjoa.

Se pular é o verbo preferido dos pivetes e carnaval o período mais esperado na adolescência, portanto, a junção das duas palavras, é a receita ideal de felicidade para todo adulto. Em “fervereiro”, o mês que ironicamente menos dias tem mas o que se vive mais intensamente, o país literalmente, ferve, enquanto o mundo inteiro de pé aplaude, vibra, admira, inveja e é claro deseja compartir para não só pular de alegria, mas é claro, pular carnaval. Pular carnaval é um ensinamento que vem na cartilha da educação brasileira, difícil de se ensinar mas fácil de se aprender.

O carnaval está para o Brasil, assim como o queijo esta para a França, a vodka para a Rússia, o big mac para os EUA, os guardas cachopudos para a Inglaterra, os homens de saia para a Escócia e o bigode para o México. Dependendo da perspectiva, apenas um vago conhecimento. Ou então, um símbolo que é capaz de definir o perfil de cada nação. A verdade é que o Brasil dança a mesma música em um ritmo diferente do resto do mundo, muito diferente do romântico tango de Buenos Aires e do rock melódico inglês. O Brasil dança no contagiante gingado de cadeiras que só o samba sabe inspirar.

Mário Vargas Llosa, célebre escritor peruano e cidadão do mundo, depois de passar um carnaval na cidade do Rio de Janeiro, traduziu em poucas palavras o sentimento que o inundou ao entrar em contato com a energia transbordante que envolve toda a população, ao afirmar que “enquanto existir o Carnaval, para quem o viva ou dele se lembre, ou até mesmo o imagine, a vida será melhor do que é normalmente, uma vida que, por alguns dias, toca os faustos do sonhos e se mistura com as magias da ficção”.O que Vargas Llosa quis dizer, é o que convenhamos, todos nós já sabemos desde sempre: que “o carnaval, onde o protagonista da festa é o corpo humano e a atmosfera em que reina e reverbera a música envolvente, imperiosa, regozijada e cega”, é uma época “do peru”.

”Yes, nós temos bananas”, já ecoava uma marchinha clássica. Mas o mais importante que se tem em fevereiro é a sintonia que ajusta toda a nação tupiniquim, numa espécie de nirvana tropical, que em coro, alto e bom som, alerta o mundo para que se abram alas, pois o Brasil vai desfilar com sua irreverência e simpatia. E se mamãe é o exemplo mais nítido de amor e samba um dos principais ingredientes do carnaval que é o maior sinônimo de alegria e felicidade, não hesitarei em sempre cantar a simples receita da minha mais completa felicidade: “Mamãe eu quero, mamãe eu quero, mamããããe eu quero sambar..”.

Meu Brasil brasileiro..

6 letras, 2 sílabas ou solamente uma palavra.

Uma palavra que leva consigo bilhões de olhos admirados, que carrega séculos de história, que produz milhares de talentos nas mais distintas habilidades…

Uma palavra que ao ser proferida por uma boca ou ao atingir um ouvido é capaz de despertar o mais prazeroso dos sorrisos.

Brasil!

Chega  a ser além de curioso, um tanto intrigante como o nosso país canta e encanta multidões. Da mesma forma que o pau-brasil, tempos atrás, era usado para tingir tecidos na Europa, hoje, as chuteiras e batucadas, caipirinhas e mulatas, ajudam a tingir uma das mais admiráveis e invejáveis culturas do planeta.

Gerações vão e vem, os preços sobem, os impostos nem se fala, o desemprego dobra, o trânsito piora e o brasileiro tá lá, em fevereiro escolhendo a fantasia pro carnaval, em junho pulando quadrilha e em dezembro comendo panetone A felicidade e a alegria de viver do brasileiro, fiel à tradições, são praticamente inabaláveis. O tempo por aqui corre diferente, sem dúvida. O calendário verde-e-amarelo segue à risca, não os dias pretos marcados uniformemente, mas os poucos vermelhos que simbolizam as datas festivas. O ano, assim como a água que corre pelo ralo, se vai em churrascos, futebóis, comemorações, cervejadas e algumas hóstias no meio do caminho. Mas todo esse charme e carisma magnético que o país tem o luxo de ostentar, além de recente, teve um custo alto para ser conquistado, à base de muita luta e resistência.

30 anos! Isso mesmo. Foram necessários 30 anos após a descoberta desta terra para que os portugueses começassem a enxergar nossas verdes matas, cachoeiras e cascatas como uma potente fonte de riquezas, que hoje, nada mais nada menos, representam o maior celeiro, o maior plantel bovino e a maior biodiversividade do mundo. Piadas de português..

O Brasil dança a mesma música em um ritmo diferente do resto do mundo. Não é no ritmo melancólico do rock inglês nem no romântico dos tangos de Buenos Aires. É no contagiante gingado de cinturas que o samba inspira. E talvez seja por isso que por aqui o tempo, verdadeiramente, corra diferente.

E aproveitando o contexto para rebater à aquelas afirmações clichês de fim de ano de que o ano passou rápido demais, pego emprestado um antigo ditado pronto de domínio popular, que já dizia que tudo que é bom dura pouco.

Agora, com licença, que eu vou pelo meu panetone..

Cantada de galo

De noite eu quero ser tudo!

Avistando aquele pedaço de queijo no céu, como um rato faminto, quero dominar o mundo.

Ao som de gafanhotos e cigarras, vou compondo em várias notas a música da minha vida, à luz aconchegante das faíscas que só as chuvas de estrelas sabem produzir.

Aquele frescor noturno me encoraja ser tudo o que eu quiser.
Quero ser astronauta apesar do meu medo mortal de voar.
Também dou crédito a carreira de jogador de futebol mesmo sabendo dos meus limites.
Me projeto ainda como um cozinheiro que não sabe nem fritar um ovo ou então um médico com aversão à sangue.
Penso em ser biólogo apesar do horror que as baratas me inspiram, penso também em ser um eletricista que não sabe sequer trocar uma lâmpada, um advogado que adora quebrar regras, um síndico que tem medo de elevador, um repórter mudo, um guarda noturno que adora dormir, um professor que não sabe nada, um arquiteto que odeia desenhar, um jornalista que não lê jornal, um publicitário sem idéias, um dentista banguela, um contador que não sabe contar, um empresário que não tem empresa…

Ao passo que o pedaço de queijo vai sendo engolido, sábias ondas sonoras repetitivas já conhecidas ecoam no ar despertando do mais profundo sonho aquele mais humilde sonhador:

- Cocoricocó…

O que em outras palavras poderia ser conhecida como a famosa cantada do galo ou uma ordem de comando para por ordem no galinheiro ou entao o até mais aceitável despertador de dorminhocos, naquele instante para mim, sem dúvida alguma, queria dizer apenas uma coisa:

- Querer não é poder.

Nós, robôs

O melhor robô do mundo não está sendo construído em solo japonês ou sendo desenhado pelas mais brilhantes mentes da América. O melhor robô do mundo é fruto de um longo processo evolutivo, muito mais longo que o da roda ao carro, do telégrafo ao e-mail, da vela à lâmpada. Estamos falando de milhões de anos atrás. Da transição do Australopithecus até o atual Homo Sapiens Sapiens. Nós, robôs.

Desde cedo a vida do homem corre em trilhos. Parece que tudo funciona como uma receita de bolo, um manual de instrução. Teimamos em seguir uma espécie de roteiro quando a vida por si só a cada instante dá mostras de ser tão imprevisível como uma rodada de poker ou uma partida de futebol.

Desde a concepção somos educados à tapas: quando nascemos, na bunda, para chorar; quando nos formamos, nas costas, como sinal de boa sorte e pelo resto de nossas vidas, na cara, como aprendizado.

Somos adestrados, como simples cães, à limpar o nariz solitariamente, paparicar chefes que odiamos, agradecer presentes desagradáveis, experimentar o que não queremos. Temos que escolher um time. Casar na igreja. Ter filhos. Não falar de boca cheia. Fazer pelo menos um orkut na vida. E durante o período fundamental de nossa existência, que dará rumo a nossas vidas, temos que saber que cueca Napoleão usava quando decidiu invadir a Itália, em que barbeiro Hitler aparava seu bigode ou então que dia da semana D. João VI jogava bolita.

Talvez, o trivial não seja sempre o ideal. E há muitos exemplos que comprovam isso. Lula, um simples operário, perdeu um dedo mas ganhou uma eleição. Pelé com uma bola, ganhou uma bolada. Beethoven, sem um sentido, ensurdeceu o planeta. No final das contas, independente da trilha que agarramos, acabamos sempre por encontrar um destino.

Nessa viagem de trens humanos, evite pegar caronas e comande seu próprio trem, porque senão, "o trem vai pro pau."

Perfeição em um mundo imperfeito

Por azar(ou sorte), ouvi falar há muito tempo que usamos menos de 10% do nosso cérebro.
Estive pensando o que faria se me fosse outorgado alguns outros décimos.
Quantas coisas eu teria inventado..
Que tal uma cerveja que não desse ressaca? Ou um controle remoto que nunca sumisse? Um pernilongo que não picasse, um cabelo que não caísse, um bêbado gente boa, um pum cheiroso, uma sogra parceira, uma injeção prazerosa, um cachorro que falasse, um pistache sem casca, um suvaco sem cc, um chaveco infalível, mais aeromoças, yakult de 2 litros, jaboticaba sem caroço..
Mas, depois de ruminar por um tempo, descobri que é na imperfeição das coisas, onde o limite e a astúcia humana são postas em cheque, que o homem evolui e se torna cada vez mais insaciável. Um contínuo aprendizado.
E como dizia o outro: - Pedras no meu caminho ? Guardo todas. Um dia, construirei um castelo.

Boa idéia!

4h da manhã!
enquanto meu corpo repousa na cama, dentro da minha cabeca há uma agitacao carnavalesca.
acabo de descobrir que meu cérebro resolveu dar uma festa.
e o que é melhor, entrada franca!!!
tudo quanto é tipo de idéia tá convidada. Vai ser um espetáculo ver tanto pensamento junto, um acontecimento inédito. Imagina só, cada idéia, com sua particularidade em meio a muitas outras idéias, comendo um amendoim, passando batom, tossindo, espreguiçando…
é só fechar os olhos que começa o fuzuê, as idéias vão chegando, umas acompanhadas, outras sozinhas e comecam a puxar a cadeira para sentarem-se, outras resolvem ficar em pé, conversando, discutindo, se abracando, beijando, repelindo..uma loucura!
Logo ali numa mesa, em meio a chops e salgadinhos, goles e tragadas, as idéias mais sacanas discutiam com as idéias mais conservadoras, qual deveria ser a próxima capa da playboy.
É um festival de besterias onde as idéias de toda minha mente se reproduzem a compassos meteóricos, como a reproducao da Terra pelo Big Bang.
É uma idéia mais louca que a outra.
Do lado de fora da festa estavam as idéias de girico, que haviam sido barradas.
Do outro lado da festa, várias idéias velhas se encontravam e se perguntavam de onde tinham tido tantas idéias.
E as idéias se confraternizavam, formando outras idéias, chocando com outras idéias, analisando outras idéias.
Os sem idéias vagavam pela festa, com os ouvidos atentos para roubar algumas idéias. 
As idéias ruins aproveitavam a oportunidade para conviver com as boas idéias.
Uma congestão de idéias.
Até que a certa hora da madrugada, as idéias de acabar a festa, como um batalhao, invadiram o local e puseram fim  a toda essa farra do boi.
O que não foi má idéia.
Buenas noches.