Garçom
Se todas as mães de garçons soubessem que seus filhos virariam garçons, não teriam sequer o trabalho de registrá-los em cartório. Quem chama algum garçom pelo nome? É incrível como criamos uma intimidade com os garçons sem nem mesmo conhecê-los: hey hey, o irmão, o brother…o meu chapa! Mas também, as mães não fazem a menor questão de ajudar. A última vez que fui tentar ler o nome de um garçom no crachá, desisti: Adalgamir. Melhor amigão, vai. Amigão encerra todos os problemas numa fração de segundos e faz com que nós não corramos o risco de chingar, naquela altura do campeonato, o nosso mais novo amigo – Agaldamir, Algadamir, Alagadamir, etc.
Engraçado como há uma variedade imensa de garçons. Sempre tem aquele que não perde nada, nunca. É o grande vencedor. O chamado campeão – ô campeão, traz mais uma pra nós. Todo garçom é torcedor. Essa é uma lei tão natural como a da ação e da reação. Ou ele é corintiano ou ele é palmeirense. Batata! É só chamar, pedir as fritas e correr pro abraço. Existem também aqueles garçons que nem mesmo batizando nossa filha já viraram cumpadres. Existe o chefia, o parceiro, o camarada. Há também os garçons substantivos como o amizade, o malandragem, o gentileza. Tem também o garçom vira-lata, que só atende com aquele assobio maroto ou aquele psiu agudo. Tudo ao gosto do freguês.
Outra verdade irrefutável é a de que os garçons detêm o elixir da longa vida. Por mais que passe o tempo, que as rugas brotem, os cabelos esbranquicem e a coluna entorte, todo o garçom, via de regra, é tratado como moço. Você há de concordar também que tem sempre um garçom que é cego ou surdo. Quando ele é cego, aquela acenada costumeira passa despercebida pelos seus olhos, como se o cliente estivesse meramente espreguiçando, estralando a costela e esbanjando falta de educação em pleno bar. Impressionante essa capacidade dos garçons de olhar e não ver. Aí partimos para o assobio e os inconfundíveis “ou, ooou”. Quando ele é surdo, não há tenor que resolva o problema. O negócio é partir para as acrobacias. Acenos de mão, olas, polegares..
Garçom, além de ser um ser muito versátil, tem o saco lá em Júpiter. Agüenta cada uma…tem que dar a saidera, descontar o couvert, suportar as borrachiches alheias e esperar como um santo a última mesa do bar. É muito bambolê. E tudo isso pelos míseros e ínfimos 10%. Ou por essa paixão irresistível de não ter inimigos.














